
A escolha do sistema de tecnologia digital vai definir o sistema padrão para as futuras transmissões das televisões brasileiras. A decisão também deve determinar quais os fabricantes estrangeiros estarão em condições de competir no Brasil e quais os mercados estrangeiros poderão utilizar os equipamentos produzidos no Brasil. Se as emissoras de televisão do Brasil conquistarem o que pretendem, nem mesmo um congestionamento vai fazer com que os motoristas percam um minuto das novelas noturnas.
No entanto, críticos do plano, dentro e fora do Brasil, afirmam que as emissoras estão perseguindo um sonho extremamente caro, que vai deixar os telespectadores abandonados e o País fora do principal sistema tecnológico do hemisfério. Ainda este ano, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deve definir o sistema padrão de tecnologia digital para as futuras transmissões das televisões brasileiras.
A indústria de telecomunicações tem demonstrado um interesse maior pelo relativamente misterioso padrão japonês, em parte porque ele poderia ser particularmente bom para o serviço móvel. A Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) espera aumentar a audiência com a recepção do sinal em ônibus e carros.
A aparente preferência das empresas de rádio e TV pelo padrão japonês motivou críticas dentro do Brasil e entre as pessoas que defendem as outras duas opções: o padrão americano e o padrão europeu. A escolha do sistema de tecnologia digital também vai definir quais os fabricantes estrangeiros estarão em condições de competir no Brasil, e quais mercados estrangeiros poderão utilizar os equipamentos lá produzidos. Entretanto, a maior parte do debate se concentra na discussão sobre o que é melhor para o público brasileiro. Críticos do padrão japonês, que ainda não foi experimentado, afirmam que a tecnologia será tão cara que vai tornar o preço dos aparelhos de televisão muito alto para a maioria das famílias brasileiras. Quando se pensa sobre isso, o que mais importa além de fazer com que seja viável para as pessoas no Brasil?, afirma Robert Graves, presidente do Advanced Television Standards Committee em Washington, que desenvolveu o padrão de televisão digital nos EUA.
Como as transmissões norte-americanas têm sido lentas em se adequar à tecnologia digital, os fabricantes de equipamentos esperam expandir os negócios através de mercados estrangeiros para seu sistema de TV digital. Em testes de campo, comandados pela Anatel, os membros do grupo de empresas de rádio e TV concluíram que o sistema japonês tinha a melhor recepção fixa para aparelhos de televisão normais e as tecnologia móvel mais avançadas entre os três padrões.
Defensores do padrão norte-americano e alguns engenheiros no Brasil questionaram a metodologia dos testes de recepção fixa, afirmando que o comitê utilizou uma amostra muito pequena e não reuniu dados em condições iguais para todos os sistemas. Testes subseqüentes nos EUA e em qualquer outro lugar, afirmam eles, mostram que o sistema dos EUA tem a melhor recepção em uma resistência mais baixa de transmissão do que os outros dois sistemas, fazendo as transmissões mais baratas para emissoras de televisão locais. Enquanto isso, as empresas brasileiras de rádio e TV se defendem garantindo que os procedimentos dos testes foram discutidos anteriormente e aprovados por representantes dos sistemas concorrentes.
Apesar das expectativas das emissores quanto à televisão móvel, há duvidas sobre se isso será uma opção viável para o Brasil. Engenheiros dizem que a potência necessária para emissão um sinal televisivo forte o suficiente para ser recebido através de aparelhos móveis instalados em carros e ônibus sobrecarregaria a rede elétrica, já tendente à crise, do Brasil. Afirmam ainda que as emissoras estariam sacrificando uma série de opções estacionárias ? como televisão de alta definição ? sem garantia de que a tecnologia poderia um dia oferecer um sinal móvel de qualidade.A maioria dos experts concorda que os debates tecnológicos são apenas metade da história para o Brasil, que importou US$ 6,5 bilhões em equipamentos de telecomunicações no ano passado.
Uma coisa que podemos estar certos é que haverá soluções tecnológicas realmente boas em qualquer dos sistemas que o Brasil escolher, afirma Ethevaldo Siqueira, um consultor de telecomunicações que tem acompanhado o processo de seleção de perto. O que precisamos saber é como chegar ao fim da década com a produção mais local, a pesquisa mais local e o menor preço para o consumidor.
Em recente reunião da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) em Quebec, representantes de todos os governos discutiram a idéia de um padrão único para as Américas, como forma de assegurar não só compatibilidade através da área, mas também criar condições de produção em larga escala, forçando assim os preços dos equipamentos e produções para baixo.
Devido ao fato de não se esperar que o modelo japonês seja testado no Japão até 2003, Siqueira e outros dizem que se o Brasil escolher aquele padrão, os consumidores poderiam se deparar com preços mais elevados para os equipamentos, e os produtores daqui poderiam ficar isolados de mercados exportadores em potencial.
Graves, do grupo dos EUA, tem um ponto de vista similar. Estamos nessa transição há dois anos e meio e já reduzimos os preços de todos esses produtos, mais de 50% no caso dos receptores, disse ele. O Brasil pode entrar e tirar vantagem de nossas economias de mercado.
No entanto, Luiz Tito Cerasoli, diretor da Anatel, afirma que o governo não está necessariamente pesando em fatores econômicos e políticos. Estamos trabalhando no nível de definição do padrão para o Brasil, disse Cerasoli. Obviamente, a integração hemisférica seria interessante. Mas se há um padrão que é melhor do que outro, para nós a decisão será o que for melhor para a sociedade brasileira, acrescenta o diretor da Anatel.
Para consumidores como Elizabeth Nakagawa, fonoaudióloga de 41 anos, com dois filhos pequenos, o advento da TV digital não vai necessariamente ser uma mudança bem vinda, principalmente se significar a compra de um novo e caro aparelho de televisão. Acho que comprarei um se precisar, disse ela. Mas se tivesse que escolher entre gastar US$ 1.000,00 em uma televisão digital e levar meus filhos para a Disney, levaria meus filhos à Disney.(Fonte: The New York Times)
Fonte: Reuters
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