
Anos atrás, nossas fantasias futurísticas envolviam mordomos robôs, vídeo em relógios de pulso e carros voadores. Atualmente, nós ficaríamos felizes em ter um celular sem zonas de sombra, e-mail sem spam e a possibilidade de assistir a qualquer atração da TV em qualquer hora que desejássemos.
Na verdade, existem progressos no último item. Uma empresa chamada Akimbo tem uma idéia interessante. E se você tivesse uma set-top box como o TiVo, com um disco rígido que pudesse armazenar 200 horas de vídeo mas em vez de gravar programação ao vivo, você pudesse escolher entre uma enorme biblioteca de atrações armazenadas na Internet e assisti-las a qualquer hora que você quisesse?
É um grande conceito. Executivos de TV poderiam se beneficiar porque eles poderiam dar uma sobrevida para todo o acervo no qual eles investiram milhões para produzir e então transmiti-las apenas uma vez. Você também se beneficiaria, porque se perdesse algum episódio de ?Desperate Housewives? ou ?The Amazing Race?, você só precisaria escolher a atração desejada no seu aparelho e baixá-la da Web. Seria como o compartilhamento de arquivos encontrado em serviços como o BitTorrent, com a exceção de que este seria totalmente legal.
Infelizmente, o serviço Akimbo só pode oferecer o que as redes e canais de cabo estão dispostos a compartilhar. E, por enquanto, a simples menção da frase ?downloads pela Internet? é o suficiente para fazer os executivos de televisão terem surtos paranóicos. Como resultado, a biblioteca do Akimbo é tão pouco significativa e sobretaxada que o negócio só é interessante como um caso do tipo ?o que não se deve fazer? no mundo dos negócios.
O dispositivo da Akimbo (US$ 200, mas em liquidação no site Akimbo.com por US$ 100 até o dia 30 de junho) é uma unidade do tamanho de um videocassete com um HD de 80 gigabytes e que precisa de uma conexão de banda larga para acessar a Internet.
Você conecta o dispositivo à sua TV, usando cabos RCA ou um cabo S-Vídeo (não inclusos). Ativar a sua conta envolve alguns minutos em frente à TV, mais alguns em um site e outros de novo em frente à TV. O serviço de downloads da Akimbo custa US$ 10 mensais ou uma taxa única de US$ 170. Agora para o momento da verdade: usando o controle remoto, você pode vasculhar a biblioteca de 2 mil programas disponíveis para consulta. E então a realidade atinge você em cheio: a biblioteca do Akimbo é risível. Como o próprio site da Akimbo explica, a lista inclui a AdvenTV, ?A primeira estação sob demanda em turco dos EUA?; Veg TV, ?instruções de culinária vegetariana?; e Skyworks, ?combates de helicópteros sobre os mais incríveis cenários do Reino Unido?.
Aqui está a lista completa das categorias de esportes: Bilhar, Esportes Radicais, Golf, Artes Marciais, Documentários e Iatismo. Você não vai encontrar Desperate Housewives ou The Amazing Race ou qualquer outro show de uma grande rede. O catálogo se constitui basicamente de atrações de redes pouco conhecidas, produções de outros países e até mesmo pequenos clipes de vídeo que podem ser vistos de graça na Web.
Alguns serviços de cabo contribuíram com algum material, incluindo clássicos da Turner, CNN, A&E, Cartoon Network, Food Network, BBC e National Geographic. A seleção é, no entanto, limitada a algumas poucas séries de cada rede, mas pelo menos não incluem comédias de costumes em turco. Mas isso não é o pior. Se você vasculhar os menus em profundidade e chegar à descrição de um determinado show, chegará às palavras eletrizantes de ?US$ 2,99? (por um período de 30 dias).
É isso mesmo: você não apenas paga pela set-top Box da Akimbo e pela taxa mensal de US$ 10 para ver shows praticamente desconhecidos. Você tem que pagar também por cada atração. E mesmo assim, essa atração que você adquirir vai se apagar depois de um mês. Isso é paranóia antipirataria elevada ao extremo. É loucura pensar que qualquer um pagaria tanto por reprises duvidosas do cabo e clássicos como os vídeos tutoriais de três minutos para novas mães.
Para piorar, os termos de aluguel são diferentes conforme a atração. Alguns são gratuitos (a Akimbo diz que 40% dos vídeos são gratuitos, mas que isso inclui trailers, blogs de vídeo, boletins da CNN e outras coisas gratuitas da Internet). O resto custa de 50 centavos de dólar a US$ 5; filmes pornográficos custam US$ 10. Alguns ficam em seu HD para sempre, outros se auto-deletam depois de 7 ou 30 dias e alguns deixam uma janela de apenas dois dias para serem assistidos.
Alguns canais cobram uma taxa mensal em vez de cobrar por cada atração individual. Por exemplo, você pode pagar US$ 2 por mês em um canal dedicado à cultura latina, US$ 10 por um pacote de todos os canais e US$ 13 mensais em um canal de ciências para crianças. Parte disso não é culpa da Akimbo. A empresa precisa desesperadamente de material para seu catálogo, então ela tem de atender a algumas demandas das grandes redes. (Este problema, claro, é exatamente o que os serviços de download de músicas tiveram de fazer antes da Apple quebrar os paradigmas ao estabelecer um preço padrão de 99 centavos de dólar por música incluindo aí um sistema de proteção contra cópias. Onde está Steve Jobs quando você precisa dele?). Mas algumas das falhas do serviço são exclusivas da Akimbo.
Baixar um conteúdo para a caixa do Akimbo usualmente demora tanto quanto o próprio show e você não pode começar a assistir a atração antes que ela tenha sido completamente baixada. Então não é exatamente vídeo sob demanda. (A velocidade de sua conexão com a Internet cai durante o download, então é melhor se ater a tarefas como ler e mandar e-mails).
O dispositivo grava o vídeo no formato do Windows Media, que às vezes congela ou perde a sincronia entre o vídeo e o áudio. A caixa leva de 8 a 12 segundos para começar a tocar a atração depois que você aperta o play. Nada acontece por vários segundos se você apertar Rewind ou Fast Forward, e há apenas uma única velocidade: exaustivamente lento.
Adiantar 30 minutos em um vídeo leva dois minutos e meio. Mas isso é velocidade de dobra espacial quando comparado com retroceder o vídeo, cuja velocidade não chega à metade ? e às vezes trava a máquina, fazendo-a desligar. Você fica pensando na época das fitas quando era possível rebobinar manualmente.
Ainda existem algumas falhas que fazem você navegar por quatro menus antes de descobrir que um conteúdo exige assinatura, taxa de acesso ou que tenha apenas dois minutos de duração.
E apesar dos apelos da Akimbo de que é o ?primeiro serviço de vídeo sob demanda com qualidade digital pela Web?, a qualidade do vídeo é errática. Nada do que está disponível está em alta definição, nada disponível parece tão bom como em um DVD e sempre há o efeito de pixelização da imagem típica de uma Web cam. Uma das séries infantis foi tão obviamente transferida a partir de uma fita VHS que é até possível perceber os chuviscos típicos de um videocassete com sujeira nas cabeças de leitura.
E existem as escolhas de design pobre, como um controle remoto sem iluminação e telas de listagem tão pequenas que não conseguem mostrar o nome completo das atrações e suas descrições.
Para resumir, o serviço Akimbo é um acidente ferroviário. Mas existem alguns poucos pontos de luz. O dispositivo é bem silencioso. Você não pode transferir nenhum vídeo para um computador mas pode copiá-los para um videocassete ou um gravador de DVD e existem algumas preciosidades na biblioteca de atrações.
A boa notícia é que a Akimbo está ciente de seus problemas. ?Não estamos dizendo a todos para adquirir o serviço?, disse Steve Shannon, fundador da companhia. ?Nós dizemos: experimente, oferecemos um período de 30 dias ou devolvemos seu dinheiro. É para chamar a atenção de pessoas que tem interesse em um canal em particular. Se você gosta mesmo de bilhar, você pode querer esta coisa?.
Mais tarde, ainda neste ano, a empresa quer atualizar o sistema operacional do dispositivo com outro mais rápido em funções de adiantar e retroceder os filmes. A Akimbo diz que está conversando com vários estúdios para oferecer mais filmes razoáveis. Mas estes só estarão disponíveis 30 dias depois que chegarem a lojas e locadoras.
A empresa também espera acrescentar atrações com um ano de idade, mas não espera ter shows que estão sendo transmitidos atualmente. ?As grandes redes não querem experimentar?, diz Shannon.
Se a Akimbo pode ajustar estes problemas e, mais importante, fazer seus parceiros serem mais razoáveis nos preços de acesso a conteúdo e limites de tempo, talvez haja uma esperança.
Mas na sua encarnação atual, a Akimbo não vai ganhar nenhum prêmio por seu valor ou seleção. Pode ser apenas um sério candidato a mico high-tech do ano.
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