
O Brasil tem tecnologia que pode ser aplicada à TV digital. Nenhum projeto, porém, constitui um sistema nacional, como foi proposto pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Vários pesquisadores propõem que as universidades participem do desenvolvimento do software de interatividade para a TV digital, também chamado de middleware, aproveitando o conhecimento gerado por projetos existentes.
O ideal seria um processo aberto para desenvolver o software, com editais públicos, afirmou o professor Guido Lemos de Souza Filho, do Departamento de Informática da Universidade Federal da Paraíba (UFPb). Souza Filho participa de dois projetos de pesquisa que podem ser aplicados à TV digital.
Um deles usa a infra-estrutura de internet2, de alta velocidade, como plataforma de desenvolvimento e teste de aplicações e ferramentas de TV interativa. Outro tem como objetivo projetar software e equipamentos para TV digital de alta definição.
O ministro espera que a TV digital comece a operar comercialmente no Brasil antes da próxima Copa do Mundo. As emissoras e os fabricantes de aparelhos precisam de um ano e meio a dois para se preparem para a estréia da nova tecnologia. Além de som e imagens melhores, a TV digital permite serviços interativos, como acesso a conteúdos da internet, correio eletrônico, auto-atendimento bancário, compras, educação à distância e vídeo sob demanda. Cerca de 87% das residências no Brasil têm televisores hoje, ainda analógicos, o que corresponde a cerca de 54 milhões de unidades.
Entre 1999 e 2000, houve testes no País de três sistemas estrangeiros: o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB. O atual ministro, quando assumiu o cargo, propôs que se estude a criação de um padrão brasileiro. Em 23 de janeiro, a Fundação CPqD e o Instituto Genius apresentaram um estudo sobre a viabilidade da criação de um sistema nacional de TV digital.
As duas entidades, que já trabalhavam em um projeto de software de interatividade para a TV digital desde o ano passado, propuseram um projeto de desenvolvimento estimado em R$ 100 milhões, a serem desembolsados em quatro anos, com recursos do Fundo de Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel). O CPqD era o centro de pesquisas do Sistema Telebrás, enquanto o Genius foi criado pela Gradiente como um instituto de pesquisas independente, sem fins lucrativos.
Royalties - Os pesquisadores preferiram não comentar a proposta do CPqD e do Genius. O valor pleiteado pelos entidades, porém, é grande, quando comparado com os projetos em andamento nas universidades. O valor é extremamente baixo, frente à importância da tecnologia para o País, disse o diretor-superintendente do Genius, Bruno Vianna.
Os dois projetos da UFPb foram orçados em R$ 1,5 milhão e, mesmo assim, sofreram cortes. A pesquisa de conversor digital da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que existe há três anos, recebeu cerca de R$ 1 milhão por ano. A Escola do Futuro, também da USP, tem um projeto para desenvolver conteúdo interativo para TV digital, voltado à educação, com investimento estimado em cerca de R$ 1 milhão, para um período de três anos.
Há polêmica quanto à necessidade de o Brasil criar um sistema de TV digital, mas quanto ao desenvolvimento do software de interatividade e dos aplicativos, é consenso que se trata de uma boa oportunidade para criar tecnologia nacional. O chamado middleware não foi integrado aos padrões e, mesmo no exterior, existem várias soluções que não foram consolidadas.
Outro argumento para o desenvolvimento local é o preço. Os royalties, por aparelho, do software de interatividade, podem chegar a US$ 20. Uma dúvida que surge, com a proposta do CPqD e do Genius, é que os aparelhos poderiam deixar de embutir direitos de propriedade intelectual pagos ao exterior para incluírem em seu custo royalties devidos a centros de pesquisa privados e brasileiros, por uma tecnologia desenvolvida com recursos públicos.
A propriedade intelectual ainda não foi discutida, afirmou o gerente de Planejamento e Inovação do CPqD, Cláudio de Almeida Loural. Todo o processo está sendo tocado pelo ministério. Segundo Vianna, do Genius, com os recursos destinados pelo governo haverá redução de pagamento de direitos e, conseqüentemente, custo menor para o consumidor. Vamos quase zerar os royalties.
Caixa - O principal mercado, quando for lançada a TV digital no País, será o de conversores, que permitirão receber o sinal digital e convertê-lo para assistir aos programas nos atuais televisores analógicos. O aparelho é semelhante à caixa ligada à TV para receber sinais de TV por assinatura. O professor Marcelo Zuffo, do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da USP, tem um projeto de conversor de baixo custo, que inclui o software e o equipamento. A meta de preço é um terço do que custa um televisor popular, explicou Zuffo. Cerca de R$ 100.
O professor chama a atenção para as características do mercado brasileiro, em que a maioria dos televisores tem 14 polegadas ou 20 polegadas. Para ele, existe uma grande oportunidade de o País exportar este sistema. Dois terços da humanidade ainda não definiram seu padrão de TV digital e são países em desenvolvimento. O LSI já está em contato com fabricantes brasileiros e multinacionais para licenciar a tecnologia.
A Escola do Futuro, também da USP, trabalha na criação de um software de interatividade para conversores de baixo custo. Para Thais Waisman, coordenadora do LabiTV da Escola do Futuro, é importante discutir a produção de conteúdo, e não ficar somente na tecnologia, quando se debate a TV digital. Temos de trabalhar com a percepção do espectador, disse Thais.
Para ele, tanto faz se está interagindo com o conversor ou com um servidor na emissora.
Fonte: Estado de São Paulo
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