Para a maioria dos consumidores, a chegada do DVD significou um verdadeiro salto de tecnologia. Não há como comparar o som e a imagem obtidos num disco digital com o que se tem, por exemplo, nas fitas magnéticas VHS, ou mesmo nas Super-VHS. Igualmente, o DVD deixa bem para trás a qualidade das transmissões de televisão, inclusive aquelas geradas a partir de sinal de satélite e captadas com antenas miniparabólicas (o chamado DTH, erroneamente denominado ?TV Digital?).
Esse salto qualitativo é mais fácil de perceber na imagem do que no som. Embora grande parte dos discos DVD produzam áudio multicanal de alto padrão, a diferença só pode ser sentida quando se liga o DVD player a um sistema de home theater. Já no caso da imagem a diferença é evidente até para quem olha o TV de longe: a resolução de um DVD pode chegar a 500 linhas horizontais, enquanto as transmissões de TV convencional atingem no máximo 300 linhas ? e uma fita VHS fica em cerca de 240 linhas. Um dos fatores que permitiram colocar num DVD imagem (e também som) de alta resolução foram os avanços no domínio digital. Entre outras coisas, a digitalização permitiu armazenar maior quantidade de dados para compor imagens mais claras e nítidas. Facilitou ainda a adaptação das imagens de cinema ? normalmente registradas em formato retangular, ou 16:9 ? para a tela de TV comum 4:3.
Foi a tecnologia digital que possibilitou também a introdução de outro grande avanço na reprodução das imagens em vídeo: a chamada varredura progressiva (progressive scan). Até então, o método-padrão para vídeo era a varredura entrelaçada (interlaced), usado praticamente desde que a televisão em cores foi inventada. Hoje, nos mercados japonês e norte-americano, simplesmente todos os TVs da era digital ou os HD (High Definition) incluem processamento progressivo das imagens. A diferença, visível aos olhos de qualquer consumidor leigo, é uma imagem muito mais parecida com a do cinema, com altíssimo grau de estabilidade e clareza.
O que nem todo mundo sabe é que para atingir essa qualidade não é preciso necessariamente usar um player do tipo progressivo. Na verdade, a melhor qualidade da imagem depende de três variáveis: o tipo de conexão, as características do display (TV ou projetor) e as do material gravado. Os DVD players com processamento progressivo ? hoje os top de linha para a maioria dos fabricantes, incluindo os do tipo DVD-Audio e SACD, que também reproduzem vídeo ? são apenas um dos meios disponíveis para recriar em casa a experiência do cinema.
Na verdade, essa experiência sofre restrições quando se usam imagens entrelaçadas. O primeiro problema é o chamado flicker nas linhas verticais, um fenômeno que pode ser mais facilmente notado quando se olha a imagem congelada: há uma certa cintilação nos detalhes da imagem, decorrente da diferença de intensidade do sinal entre uma linha e outra. Para compensar disso, alguns aparelhos utilizam um filtro especial na freqüência vertical ? só que esse filtro acaba reduzindo a nitidez dos detalhes.
Outra restrição das imagens entrelaçadas é que, tratando-se de cenas em movimento, há constantes alterações entre um quadro e outro. Para cada intervalo de 1/60 de segundo, os objetos da cena são desenhados sobre a tela com apenas metade do número possível de linhas escaneadas. Com isso, as linhas ficam muito mais visíveis e a resolução vertical cai pela metade também. Dependendo do filme, uma imagem com resolução de 480 linhas entrelaçadas acaba sendo cortada para até 240 linhas. No sistema progressivo, com cada linha sendo escaneada na seqüência exata, esse problema é evitado.
Costuma-se dizer que o DVD é, por definição, um formato de vídeo progressivo, mas isso não é 100% verdade. Na maioria dos filmes distribuídos atualmente, as imagens ainda são registradas pelo método entrelaçado. Quando se trata de filmes de cinema, que são transferidos para DVD, só são registrados no disco os campos necessários de cada quadro (à velocidade de 24 quadros por segundo). Quando se usa um player do tipo progressivo, este se encarrega de reordenar os campos pares e ímpares para fazer a leitura completa de cada quadro. Pelo menos em teoria, esse processo garante que a transferência de filme para vídeo esteja livre dos chamados ?artifícios? (em inglês, artifacts), pequenas distorções na imagem que são quase imperceptíveis.
Sete métodos diferentes são usados atualmente pelos fabricantes em seus DVD players para identificar os campos corretos do disco e montar uma imagem progressiva. Todos esses métodos, no entanto, têm que lidar com duas características intrínsecas do processo de transferência de filme para vídeo: nem todos os dados contidos no filme são codificados exatamente como no original; e nem todos os dados contidos no disco vêm exatamente do filme. Falhas na codificação podem ?enganar? um player, de modo a provocar erros na reordenação dos campos pares e ímpares, o que resulta nos tais artifícios. Alguns players são melhores do que outros ao detectar esses erros e corrigi-los ou minimizar seu impacto na imagem que aparece na tela.
Os programas de vídeo que não foram transferidos a partir de um filme celulóide são particularmente difíceis de processar. É que esses sinais são gravados com câmeras de vídeo, na velocidade de 60 campos entrelaçados por segundo. O player então tem que produzir imagens progressivas a partir de uma fonte entrelaçada ? ou melhor, de várias fontes, porque nunca é usada apenas uma câmera. Infelizmente, ainda não há uma solução perfeita para isso.
Como já foi dito, um DVD player progressivo não é a única forma de conseguir imagens progressivas. Uma alternativa para quem tem um player do tipo entrelaçado é conectá-lo a um dobrador de linhas (também chamado vídeo scaler), de preferência que tenha o recurso ?inverse telecine? para processar imagens transferidas a partir de filme. Em termos de funcionamento, a diferença é que um player progressivo sempre trabalha no domínio digital e não requer, portanto, conversão do sinal analógico.
A maioria dos DVD players progressivos libera sinal com 480 linhas horizontais, exatamente o dobro das transmissões de TV convencional. Isso significa que um TV ou monitor comum não consegue reproduzir essa imagem. No caso dos discos DVD gravados em NTSC (a maioria dos que circulam no Brasil), a resolução é de 480p, idêntica à das transmissões de TV Digital em vigor nos EUA. Ou seja, TVs, monitores e projetores compatíveis com DTV aceitam perfeitamente o sinal desses discos, o que realmente significa um enorme ganho na qualidade da imagem. A resolução em pixels, nesses casos, também é próxima da VGA obtida nos computadores convencionais (640x480, ou seja, 640 linhas verticais e 480 horizontais). Portanto, esses discos também podem ser reproduzidos através de computadores.
Mas pode haver problemas de compatibilidade. Um deles é que a maioria dos players progressivos só liberam esse tipo de sinal pelas saídas vídeo componente (YPbPr), enquanto muitos TVs, projetores e a maioria dos monitores de computador só aceitam o sinal via conector RGB. Pode ocorrer também o inverso quando se trata de drives DVD-ROM inseridos em computadores: a saída é RGB, mas o TV não possui essa entrada. Para resolver isso, já existem conversores que ganharam o nome de transcoders (cuidado para não confundi-los com os antigos transcoders NTSC/PAL-M, ainda usados no Brasil).
Outra dificuldade é que muitos TVs widescreen não permitem o ajuste de formato de tela ? aspect ratio ? quando recebem sinal 480p (projetores normalmente têm esse recurso). Conseqüentemente, apenas discos anamórficos 16:9 irão tocar corretamente nesses TVs. Ao colocar um filme com formato de tela cheia (4:3) ou em letterbox, as imagens parecerão distorcidas. Alguns DVD players fazem a correção, mas se isso não acontece a única solução é adotar um video scaler com saída componente e controle de aspect ratio.
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